Se você já comprou um remédio genérico na farmácia, provavelmente pagou bem menos do que pelo equivalente de marca. Mas já parou para pensar como esse remédio chegou até você? Não é só uma questão de produzir uma pílula igual. Por trás de cada caixinha de atorvastatina ou metformina há uma cadeia global, complexa e cheia de intermediários - com milhões de dólares trocando de mãos antes que o paciente abra o frasco.
De onde vem o ingrediente ativo?
Tudo começa com o ingrediente ativo - a parte do remédio que realmente faz efeito. Em medicamentos genéricos, esse componente é chamado de API (Active Pharmaceutical Ingredient). E aí está um dos maiores segredos: 88% da produção mundial de APIs acontece fora dos Estados Unidos. A maior parte vem da Índia e da China. Um laboratório em Hyderabad ou em Shandong produz toneladas de substâncias químicas puras, que depois são embaladas em tambores e enviadas por navio para fábricas de medicamentos em todo o mundo. Esses fornecedores não são farmácias. São indústrias químicas especializadas, muitas vezes com certificações internacionais de qualidade. Mas o controle é difícil. A FDA aumentou de 248 para 641 inspeções em fábricas estrangeiras entre 2010 e 2022, mas ainda assim, muitos pontos da cadeia ficam fora da vista dos reguladores. Isso cria riscos. Durante a pandemia, 170 medicamentos genéricos sofreram escassez por causa de interrupções na produção na Ásia.Como o remédio ganha permissão para ser vendido?
Depois que o ingrediente ativo chega à fábrica, ele é misturado com outros componentes - excipientes, como amido ou celulose - e transformado em comprimidos, cápsulas ou xaropes. Mas isso não basta. Para ser vendido como genérico nos EUA (e em muitos outros países), o produto precisa de aprovação da FDA. Isso é feito por meio de um pedido chamado ANDA (Abbreviated New Drug Application). O que o fabricante precisa provar? Que seu remédio é terapeuticamente equivalente ao de marca. Ou seja: ele tem a mesma dose, a mesma forma, a mesma velocidade de absorção e o mesmo efeito no corpo. Não precisa repetir todos os testes clínicos. Mas precisa de estudos de bioequivalência, que comprovam que o corpo absorve o medicamento da mesma forma. Essa é a base da economia dos genéricos: evitar repetir custos que já foram pagos pela empresa que criou o remédio original.Quem compra o remédio da fábrica?
Depois da produção e da aprovação, o remédio sai da fábrica e vai para os distribuidores. São empresas como McKesson, AmerisourceBergen e Cardinal Health - os grandes “atacadistas” da saúde. Eles compram grandes volumes de medicamentos de vários fabricantes e armazenam em centros logísticos espalhados pelo país. Aqui entra um detalhe importante: os distribuidores não vendem ao preço de fábrica. Eles negociam descontos com os fabricantes - muitas vezes por pagamento imediato ou por grandes volumes. Depois, vendem às farmácias com um novo desconto, geralmente baseado no “Wholesale Acquisition Cost” (WAC), ou Custo de Aquisição no Atacado. Mas esse preço não é o que o paciente paga. É só o ponto de partida.
Como as farmácias compram e vendem?
As farmácias - sejam grandes redes como CVS ou pequenos estabelecimentos locais - compram os medicamentos dos distribuidores. Mas elas não têm poder de negociação igual. Farmácias independentes, por exemplo, não conseguem os mesmos descontos que grandes cadeias. Por isso, muitas se unem em grupos de compra para ter mais força. Aqui surge um problema real: o preço de compra nem sempre bate com o que o plano de saúde paga. Isso porque os planos usam um sistema chamado MAC (Maximum Allowable Cost). O MAC é o teto máximo que o plano vai reembolsar por um determinado genérico - por exemplo, 10 mg de atorvastatina. Esse valor é calculado com base no preço médio de todos os fabricantes disponíveis, não no que a farmácia realmente pagou. Em 2023, 68% das farmácias independentes nos EUA relataram que o MAC era menor que o custo real de aquisição. Isso significa: a farmácia vende o remédio e ainda perde dinheiro. É um sistema que pressiona os pequenos negócios. Muitos só conseguem sobreviver porque o reembolso do genérico é compensado por outros serviços - como consultas de medicação, testes rápidos ou vendas de produtos de bem-estar.Quem está por trás dos planos de saúde?
Quase dois terços das receitas nos EUA são processadas por PBMs (Pharmacy Benefit Managers). São empresas como CVS Caremark, OptumRX e Express Scripts. Elas não são farmácias. Não são seguradoras. São intermediárias que negociam com fabricantes, distribuidores e farmácias - tudo ao mesmo tempo. O que elas fazem? Definem quais remédios entram nas listas de cobertura (formulários), negociam descontos e reembolsos com fabricantes, e decidem quanto pagar às farmácias. Mas aqui está o ponto crítico: enquanto os fabricantes de medicamentos de marca pagam grandes reembolsos aos PBMs para garantir espaço nas listas, os fabricantes de genéricos quase nunca fazem isso. Eles não têm poder de barganha. Por isso, o preço do genérico cai - e muito. O resultado? O fabricante de genérico recebe apenas 36% do valor total gasto com o remédio. O restante vai para distribuidores, PBMs e outros intermediários. Isso explica por que um remédio que custa 20 centavos para produzir pode ser vendido por 5 dólares - e o paciente ainda pagar menos de um dólar com o plano de saúde.
Rogério Santos
dezembro 10 2025Essa cadeia é um pesadelo logístico e ninguém fala disso. Pensei que genérico era só mais barato, mas descobri que é quase um milagre chegar até a gente sem faltar.
Se o governo não mexer nisso, daqui a pouco vai ter remédio de marca só pra rico.
Isso aqui é saúde, não mercado financeiro.